EDITORIAL Revista InComunidade: Salazar e Ventura | Henrique Dória

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Embora louve Salazar, André Ventura é muito diferente do ditador do Estado Novo. Salazar era sereno e distante. Ventura é palavroso e taberneiro. Salazar disfarçava o ódio. Ventura exibe-o. Salazar era um ditador de sacristia. Ventura é um fascista típico, exprimindo-se aos gritos em catadupa e em gestos espetaculares como Mussolini e Hitler.

Mas têm muito em comum: o ódio, o cinismo, a mentira e a submissão ao grande poder económico.

Para Salazar, Portugal deveria viver como habitualmente. Pobre, ignorante, submisso, respeitador dos poderes instalados, o poder político e o poder económico.

Dizendo-se um pobre homem de Santa Comba Dão não era com o povo que convivia, mas que, na realidade, desprezava. O seu companheiro de domingo preferido era Ricardo Espírito Santo, avô de Ricardo Salgado.

E se Salazar, para si mesmo, sempre recusou ofertas de valores e até de riqueza, na realidade uma das formas de controle do poder era o conhecimento, o domínio, e a colaboração com a corrupção. E isso só parecia não existir porque a censura impedia o seu conhecimento.

Não são apenas as cunhas para várias benesses, sobretudo empregos, que a família e amigos lhe pediam e ele aceitava, como o atesta a sua correspondência e dos seus ministros. A corrupção dava-se, sobretudo, através da lei do Condicionamento Industrial, que deixava nas suas mãos, dos seus ministros, secretários e subsecretários de Estado a proteção aos grandes grupos económicos instalados, impedindo o nascimento de empresas que concorressem com os seus  empresários favoritos, os quais, por sua vez, o favoreciam na manutenção do poder.

Mas assinalamos dois casos em que a intervenção de Salazar esteve inteiramente ligado ao favoritismo e à corrupção.

Um deles foi o caso da família da mulher do número dois da PIDE, Barbieri Cardoso. A família da mulher de Barbieri Cardoso tinha perdido um concurso para construção de obras públicas. Barbieri Cardoso intercedeu junto de Salazar, que mandou anular o concurso para ele ser atribuído à família de Barbieri Cardoso.

Outro caso, esse sim, muito grave, que prejudicou gravemente o país, foi a concessão do fornecimento de adubos ao grupo CUF para a chamada Campanha do Trigo, iniciada em 1928. Foi a Campanha do Trigo e o fornecimento de adubos para essa campanha que permitiu ao grupo CUF tornar-se, com o sustentáculo financeiros do Estado Novo, o maior grupo económico da Península Ibérica. Simultaneamente, Salazar apoiava os grandes agrários do Alentejo, também seus principais apoiantes.

A Campanha do Trigo revelou-se um desastre económico para o país, mas a corrupção salazarista que esteve ligada a essa campanha, foi uma grande benesse para  o grupo CUF e os agrários alentejanos.

André Ventura é diferente Salazar também porque os tempos são diferentes. O condicionamento industrial já não é mais possível, e Ventura está mais ligado à fuga ao fisco e ao branqueamento de capitais. Um exemplo: Ventura atiça o ódio aos ciganos agitando com o Rendimento Social de Inserção (RSI). Mas só 3,8% dos 177.671 portugueses que receberam o RSI eram ciganos, e um terço deles crianças. E todos os ciganos receberem, no seu conjunto, 1.044.456 euros, em 2023.

Mas a evasão fiscal, contra a qual não fala André Ventura, prejudicou o país em cerca de 13 mil milhões de euros.

Contra isso não propõe o Ventura leis. Pelo contrário, ele é especialista nessa área.

Quando Ventura fala que quer três Salazares para, pretensamente, salvarem Portugal, ele está a dizer que quer multiplicar por três a corrupção existente no tempo de Salazar.

HENRIQUE DÓRIA

Foto: Henrique Dória

Henrique Dória é advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da Rádio Transforma.

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