COMO TRATAR O SNS? – Entrevista ao médico Bruno Maia
enfoque
No mais recente episódio do “Enfoque“, tivemos o privilégio de conversar com o Dr. Bruno Maia, médico neurologista com uma visão profunda sobre os desafios que assolam o Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal. A entrevista, que ecoa num momento de significativa mobilização da classe médica, oferece um panorama lúcido sobre a crise, as suas causas e os possíveis caminhos para o futuro.
A conversa começou inevitavelmente com as recentes manifestações dos médicos em frente a um evento da Organização Mundial de Saúde (OMS). O Dr. Bruno Maia contextualizou este protesto, ligando-o diretamente àquilo que ele define como a principal mazela do SNS: uma crise de recursos humanos transversal. Curiosamente, a própria OMS já reconheceu uma crise global no setor da saúde, e Portugal não é exceção.
Orçamento Crescente, Problemas Persistentes?
O Governo tem argumentado um investimento recorde no SNS para 2023. No entanto, o Dr. Bruno Maia levanta uma questão crucial: este aumento orçamentário está a ser direcionado para resolver os problemas estruturais, nomeadamente a falta de profissionais? A resposta parece ser um tanto ou quanto sombria.
Apesar de um aumento no número de profissionais de saúde desde 2015, a perda de poder de compra significativa entre 2009 e 2019 (18% para os médicos, por exemplo) desmotivou e continua a desmotivar muitos profissionais. Esta situação leva a um aumento do recurso ao “tarefeiro” e às horas extraordinárias, o que, segundo o Dr. Maia, é contraproducente e sinaliza uma fuga de talentos para o setor privado ou para o estrangeiro.
O Setor Privado em Expansão: Solução ou Sintoma?
A entrevista abordou também o crescente papel do setor privado na saúde em Portugal. O Dr. Bruno Maia aponta para um aumento das convenções diretas entre o Estado e os privados, bem como para a persistência das parcerias público-privadas (PPPs).
A análise das PPPs foi particularmente crítica. O caso do Hospital de Braga foi citado como exemplo de uma alegada “poupança” que, na verdade, pode mascarar uma transferência de custos para outras unidades do Serviço Nacional de Saúde, como o envio de doentes complexos para hospitais públicos do Porto. O Dr. Maia sublinhou que o interesse do setor privado reside, naturalmente, nas áreas mais rentáveis, deixando para o SNS os cuidados mais dispendiosos e complexos, como AVCs e politraumatismos.
Investir no SNS: Para Além dos Edifícios
O investimento em novas infraestruturas, como o Hospital de Évora, é inegável. Contudo, o Dr. Bruno Maia alerta para o risco de termos hospitais modernos, mas vazios pela falta de profissionais. A distribuição geográfica dos privados, concentrados em zonas onde o SNS enfrenta maiores dificuldades (como Lisboa e Algarve), também não parece ser coincidência.
O Legado de Arnaut e Semedo: Um Caminho para o Futuro?
A conversa não deixou de revisitar a proposta de reforma do SNS idealizada por António Arnaut, o seu fundador, e por João Semedo. A ideia central era revogar a Lei de Bases da Saúde de 1990, considerada um ataque aos princípios do SNS, e reafirmar a centralidade do serviço público, com o privado a desempenhar um papel meramente supletivo.
O Dr. Bruno Maia recordou o apelo emocionado de António Arnaut para “salvar o Serviço Nacional de Saúde” e a sua defesa da exclusividade dos profissionais no setor público, uma medida que foi descontinuada e que muitos consideram ter contribuído para a atual crise.
Um Futuro Incerto, Mas com Esperança na Vontade Popular
Apesar do cenário desafiador, o Dr. Bruno Maia manifestou uma crença na vontade da maioria da população portuguesa em ter um serviço público de saúde forte e acessível. Ele apelou à inteligência de quem defende o SNS para aproveitar este sentimento e lutar por um sistema que seja verdadeiramente universal, de qualidade e bem dotado de recursos humanos e financeiros.
O alerta final do Dr. Bruno Maia foi contundente: a exploração dos profissionais de saúde, com jornadas exaustivas, não é apenas uma violência contra eles, mas também um risco para a saúde dos utentes. A valorização das carreiras, dos salários e das condições de trabalho é fundamental para reconstruir um Serviço Nacional de Saúde eficiente e capaz de responder às necessidades da população.
A entrevista com o Dr. Bruno Maia no “Enfoque” foi uma análise profunda e necessária sobre a complexa realidade do SNS em Portugal. Fica claro que a crise é multifacetada e exige soluções que vão além de meros aumentos orçamentais, focando na valorização dos seus profissionais e na reafirmação do seu papel central no sistema de saúde.
