“A GUERRA DA UCRÂNIA E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS” | Enfoque #71 – Parte II, c/ Carlos Matos Gomes

40
guerra na europa

enfoque

No mais recente episódio do programa “Enfoque“, tivemos o privilégio de receber o renomado analista Carlos Matos Gomes para uma discussão perspicaz sobre os temas que moldam o nosso presente e o nosso futuro. Prepare-se para uma jornada de análise aprofundada sobre a guerra na Europa, o papel desafiador da União Europeia, a emergente nova ordem mundial e a crescente influência do bloco dos BRICS.

A Europa em Crise: Uma Voz Silenciada no Conflito?

Carlos Matos Gomes iniciou a conversa lançando uma questão fundamental: qual é o real papel e a influência da Europa no atual conflito? A visita de líderes europeus à Ucrânia, que parecia um gesto de apoio e solidariedade, foi rapidamente ofuscada pela visita subsequente e não anunciada de Boris Johnson. Esta sequência de eventos levanta dúvidas sobre a coesão e a força da voz europeia no cenário internacional.

“Nós temos uma Europa em que aparece um trovão e destrói e numa visita a seguir se não sabe preparada que não é anunciada e que a deixa com as calças na mão a esses três vidas o Kefir e a outra Europa tem depois e já agora nossa espécie tem um formato de rosto são vários níveis de representatividade…”

Gomes não poupou críticas à estrutura da União Europeia, apontando para a perceção de uma hierarquia entre os estados-membros, onde potências como França, Alemanha e Itália parecem deter um peso desproporcional. Além disso, questionou a legitimidade e a representatividade dos funcionários que lideram órgãos cruciais como a Comissão e o Conselho Europeu, levantando a preocupação sobre o distanciamento entre as decisões tomadas em Bruxelas e a vontade dos cidadãos europeus.

“…cada ação dos nossos os dirigentes da União Europeia neste caso não são levados a sério por nenhum dos atores e essa é a pior das situações em que nós podemos.”

Quanto Tempo Durará a Guerra? E Quem Realmente Sofre?

A análise prosseguiu para a questão da duração do conflito e os seus impactos diferenciados. Para Gomes, a Europa é, sem dúvida, a região mais afetada pela guerra, arcando com as consequências económicas, sociais e geopolíticas diretas. Em contraste, os Estados Unidos, geograficamente distantes do epicentro do conflito, não enfrentam as mesmas vulnerabilidades no seu território.

A perspetiva sobre os interesses da Rússia e dos Estados Unidos no prolongamento da guerra também foi explorada. Gomes levanta a hipótese de que a Rússia poderia ver na continuidade do conflito uma oportunidade para expandir o seu domínio territorial, deixando claro que a ideia de uma derrota não é aceitável para o Kremlin. Por outro lado, o analista sugere que o prolongamento da guerra poderia ser conveniente para os Estados Unidos, tanto em termos de ganhos políticos internos quanto no enfraquecimento da Europa Ocidental e da própria Ucrânia.

“Esta guerra vai durar enquanto convier a um dos grandes lagos e eu não tenho ao contrário muitos comentadores a quem é que o prolongamento da guerra é mais favor…”

A sombra de uma escalada perigosa paira sobre o conflito, com Gomes alertando para o risco de que, num cenário de impasse prolongado, um dos lados possa recorrer a armamentos mais potentes, inclusive armas nucleares táticas.

A Provocação da Lituânia e a Fragilidade da NATO

A recente tensão envolvendo a Lituânia e o trânsito de mercadorias para Kaliningrado foi interpretada por Carlos Matos Gomes como uma possível provocação, testando os limites da resposta russa e da coesão da NATO. Esta situação levanta a preocupação sobre se um ato isolado de um membro da Aliança Atlântica poderia desencadear uma resposta em larga escala e qual seria a disposição da NATO em declarar guerra à Rússia por essa questão.

Além disso, Gomes expressou a sua apreensão em relação às consequências sociais do prolongamento da guerra, como o aumento do número de refugiados, a escalada da pobreza, o desemprego e a deterioração das condições de vida em toda a Europa.

A Nova Ordem Mundial: Onde Está a Europa?

Um dos pontos mais impactantes da análise de Carlos Matos Gomes foi a sua visão sobre a emergente nova ordem mundial. Para o analista, a Europa perdeu o protagonismo e a centralidade que outrora possuía no cenário global. Ele argumenta que, atualmente, o continente europeu não é mais um produtor de bens essenciais em setores cruciais como tecnologia e conhecimento.

A ausência de produção significativa em áreas como a indústria aeronáutica de ponta, a tecnologia de satélites, a computação avançada e a inteligência artificial ilustra, segundo Gomes, o declínio da relevância económica e tecnológica da Europa no contexto global. Os centros de inovação e desenvolvimento deslocaram-se para outras regiões do mundo.

O Crescente Poder dos BRICS: Um Contraponto à Hegemonia?

Em contrapartida ao declínio da influência europeia, Carlos Matos Gomes destacou o crescente fortalecimento do bloco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) como um ator cada vez mais relevante na geopolítica mundial. Ele enxerga o BRICS como uma plataforma para a construção de relações comerciais e associações independentes, que desafiam a tradicional ordem global centrada nos Estados Unidos e no dólar.

A vasta riqueza em matérias-primas da América Latina e da África, aliada ao potencial de desenvolvimento tecnológico de países como o Brasil (apesar dos desafios internos), confere ao BRICS um peso significativo. No entanto, Gomes alerta que essa ascensão não ocorrerá sem resistência, prevendo uma forte oposição por parte dos Estados Unidos, que podem recorrer a estratégias de desestabilização para conter a influência do bloco.

A Guerra Além do Campo de Batalha: O Ataque à Cultura Russa

Um aspeto particularmente preocupante levantado por Carlos Matos Gomes foi a proibição e até mesmo a queima de obras de autores russos em alguns países europeus. Para o analista, essa atitude representa um retrocesso cultural inaceitável, que atinge os fundamentos do pensamento e da herança cultural europeia.

Essa “guerra cultural” demonstra, na visão de Gomes, uma intolerância perigosa e um afastamento dos valores que historicamente moldaram a identidade europeia.

Rumo ao Desconhecido: As Perguntas que Precisam Ser Feitas

Ao concluir a sua análise, Carlos Matos Gomes refletiu sobre o futuro incerto e as questões cruciais que os cidadãos europeus precisam começar a colocar aos seus líderes políticos. Num cenário de potencial escalada do conflito, qual seria a resposta da Europa? Quais são os planos de contingência?

A falta de debate público e de respostas claras para essas perguntas é, para Gomes, um sintoma da “apagada e vil tristeza” que parece pairar sobre a Europa.

 

A análise de Carlos Matos Gomes no programa Enfoque oferece-nos uma perspetiva sombria, mas realista, sobre os desafios que a Europa enfrenta no contexto da guerra e da emergente nova ordem mundial. A perda de protagonismo, a falta de uma voz unificada e a fragilidade perante potências globais são temas que exigem reflexão e ação por parte dos líderes e dos cidadãos europeus. O fortalecimento dos BRICS como um contraponto à hegemonia tradicional adiciona uma camada de complexidade a este cenário em transformação.

Avalie este post

Autor