“MULHERES FORA DA LEI” – ANABELA NATÁRIO

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livros e autores andré gardel Maria Estela Guedes

Livros e Autores

No mais recente episódio do nosso programa “Livros e Autores“, apresentado por Loreley Haddad, tivemos o privilégio de receber a aclamada historiadora Anabela Natário, autora do impactante livro “Mulheres Fora-da-Lei“.

Se vocês, tal como nós, são apaixonados por história, pelo estudo do crime e pelas complexas narrativas femininas, este episódio é para vocês. A Anabela guiou-nos pelos resultados da sua minuciosa pesquisa, desvendando a história de figuras femininas que ousaram desafiar as leis e as convenções sociais ao longo dos séculos em Portugal.

A Génese de um Interesse: Crime, História e o Universo Feminino

A Anabela partilhou connosco a faísca que acendeu a chama para este projeto. A sua paixão pela história, aliada ao seu interesse pelo intrincado mundo do crime e à sua dedicação em explorar o papel multifacetado das mulheres na sociedade, convergiram naturalmente. A sua pesquisa anterior sobre as biografias de mulheres portuguesas já havia revelado a existência de casos criminais, plantando a semente da curiosidade sobre essas figuras que desafiaram as normas.

A Lente de Género no Crime: Um Olhar Ampliado sobre as Mulheres Fora-da-Lei

Um dos pontos altos da nossa conversa foi a análise da perspetiva de género na compreensão dos crimes cometidos por mulheres. A Anabela lembrou-nos de como a sociedade, ao longo da história, nutriu expectativas específicas sobre o comportamento “feminino” – delicadeza, cuidado e uma postura maternal. Essa idealização fazia com que os crimes cometidos por mulheres fossem recebidos com um choque ainda maior e, muitas vezes, julgados e punidos com uma severidade desproporcional.

Explorámos juntos a influência de fatores passionais, como relacionamentos amorosos conturbados, e a perturbadora possibilidade de manipulação por terceiros em muitos desses casos. Será que a “fragilidade feminina” era explorada ou utilizada como justificação para os seus atos?

O Tratamento Desigual e a Cobrança Social sobre as Mulheres Criminosas

A Anabela Natário enfatizou um ponto crucial: a sociedade invariavelmente se mostrou mais implacável com as mulheres que ousavam transgredir a lei. Essa disparidade era um reflexo de uma visão enraizada da mulher como um “ser de segunda”, com um papel social estritamente definido. A expectativa de que a mulher se dedicasse exclusivamente ao lar e aos afazeres domésticos contrastava drasticamente com a realidade de mulheres que, por diversos motivos, se viam envolvidas em atos criminosos. Essa transgressão das normas levava, frequentemente, a julgamentos mais duros e à difusão da ideia de que essas mulheres seriam intrinsecamente “piores” que os homens ao infringir a lei.

A Percepção da Criminalidade Feminina ao Longo dos Séculos (XVIII ao XX)

A nossa conversa viajou no tempo, mostrando a persistência dessa visão distorcida da mulher criminosa. A Anabela partilhou como até mesmo estudos de criminologia do início do século XX ecoavam a ideia de que mulheres criminosas seriam mais perversas e capazes de planear os seus crimes de forma mais elaborada. Essa perceção, talvez ligada à menor força física atribuída às mulheres, frequentemente as associava ao uso de métodos “subterfúgios” como o envenenamento.

O Caso Emblemático de Isabel Cless Samu: Moralidade Acima da Prova?

Um dos casos que nos deixou particularmente impactados foi o de Isabel Cless Samu, detalhado pela Anabela. Condenada à morte por tentar matar o marido (que, surpreendentemente, sobreviveu), a autora levanta uma hipótese perturbadora: será que a condenação foi mais influenciada por questões morais, como um possível envolvimento amoroso da Isabel, do que pela tentativa de homicídio em si? Este caso serve como um lembrete sombrio da fragilidade das provas e do peso do julgamento moral, especialmente quando aplicado às mulheres em séculos passados.

Adultério e a Desigualdade de Género nas Leis

A nossa conversa também tangenciou a questão do adultério, um tema que historicamente carregou um peso desigual para homens e mulheres. A Anabela lembrou-nos de como, em tempos idos, o adultério feminino era punido com muito mais rigor do que o masculino, expondo a persistência do machismo e da misoginia tanto na sociedade quanto nas próprias leis ao longo do tempo.

Empatia e Seleção de Casos: A Perspetiva da Autora

A Anabela partilhou a sua experiência como narradora dessas histórias complexas e, muitas vezes, trágicas. Ela revelou a carga emocional de se conectar com a trajetória dessas mulheres que, por mais que tivessem cometido atos criminosos, eram também seres humanos inseridos em contextos sociais específicos. A seleção dos 23 casos presentes em “Mulheres Fora-da-Lei” procurou apresentar uma amostra diversificada de crimes e realidades geográficas em Portugal. A autora confessou ter sentido, em muitos momentos, uma profunda pena e uma certa compreensão diante das circunstâncias extremas que algumas dessas mulheres enfrentaram.

O Comovente Caso da Jovem Mãe em Lisboa

Um dos relatos que nos tocou profundamente foi o da jovem mãe solteira que, desamparada e em completo desespero, acabou por asfixiar o seu bebé no Campo Grande, em Lisboa. A voz da Anabela carregava a imensa pena e a compreensão diante da situação limite vivida por essa mulher – um caso que, infelizmente, ainda encontra ecos tristes na sociedade contemporânea.

O Brutal Caso de Luíza de Jesus: Múltiplos Infanticídios e um Contexto de Miséria

Outro caso impactante mencionado foi o de Luíza de Jesus, tristemente conhecida pelo envolvimento na morte de diversas crianças. A Anabela aponta para um possível contexto de dificuldades intelectuais e a influência de outras pessoas nos seus atos, ressaltando a complexidade do caso e a escassez de informações completas nos registos históricos.

Reflexões Finais: Crueldade, Justiça e a Possibilidade de Novos Julgamentos na História

Ao final desta conversa enriquecedora, a nossa host questionou a Anabela sobre os casos que ela considerava mais cruéis e aqueles que, talvez, merecessem uma revisão histórica à luz do conhecimento atual. A Anabela apontou o caso de Luíza de Jesus como um exemplo de grande crueldade, enquanto a história da jovem mãe em Lisboa evocou uma profunda tristeza e um sentimento de compreensão diante do desespero.

A Anabela deixou-nos com uma importante reflexão sobre a necessidade de analisarmos esses casos históricos com um olhar crítico, levando em consideração o contexto social, as desigualdades de género e as possíveis injustiças cometidas.

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