AGRICULTORES ESMAGADOS PELA GRANDE DISTRIBUIÇÃO
enfoque
Em fevereiro de 2021, o programa “Enfoque” contou com a presença de Joaquim Taveira — engenheiro agrónomo, professor na Escola Superior Agrária de Bragança e empresário agrícola — para uma conversa esclarecedora sobre os desafios que a agricultura enfrenta actualmente em Portugal.
A agricultura portuguesa sob pressão
De acordo com Joaquim Taveira, a agricultura nacional vive uma fase particularmente delicada, marcada por um profundo desequilíbrio nas relações comerciais com a grande distribuição. “A pressão que os grandes grupos de distribuição exercem sobre os produtores é esmagadora”, afirma.
Na prática, muitas cadeias de supermercados impõem condições rigorosas aos agricultores: preços excessivamente baixos, prazos de pagamento alargados e promoções realizadas à custa de quem produz. O resultado? Margens de lucro cada vez mais reduzidas e uma instabilidade económica constante para quem trabalha a terra.
Um sector envelhecido e pouco atractivo para os jovens
Para além das dificuldades financeiras, Joaquim Taveira alerta para a falta de atractividade da agricultura junto das novas gerações. “Como é que um jovem pode investir numa actividade onde não vislumbra futuro? Onde o rendimento é incerto e o retorno do investimento é duvidoso?”, questiona.
Este cenário contribui para o envelhecimento do sector e para a perda de dinamismo no meio rural, comprometendo a médio e longo prazo a sustentabilidade da produção agrícola em Portugal.
Sustentabilidade: uma meta difícil quando o presente é instável
Apesar da crescente aposta na inovação tecnológica e nas práticas agrícolas sustentáveis, Taveira sublinha que “nenhuma tecnologia salva um sector quando o mercado está estruturado de forma injusta”. A sustentabilidade começa com a viabilidade económica dos produtores — sem essa base, nenhuma evolução duradoura é possível.
Caminhos possíveis: regulação, valorização e consumo consciente
Apesar do panorama adverso, há soluções ao alcance. Para Joaquim Taveira, é essencial repensar o modelo de distribuição: promover circuitos curtos, valorizar os produtos locais e proteger os produtores através de uma legislação mais eficaz.
Também o papel do consumidor é determinante. Ao optar por produtos nacionais e sazonais, cada consumidor contribui directamente para a valorização da produção local e para a construção de um sistema alimentar mais justo, equilibrado e sustentável.
A entrevista com Joaquim Taveira é um alerta claro: sem mudanças estruturais, a agricultura portuguesa continuará a perder força. Mas com políticas públicas assertivas, um mercado mais equitativo e consumidores conscientes, é possível revitalizar um sector essencial para o país e para o futuro do mundo rural.
