livros e autores andré gardel Maria Estela Guedes

Livros e Autores

No nosso mais recente encontro do “Livros e Autores“, tivemos o privilégio de embarcar numa fascinante jornada pelo universo multifacetado de André Gardel. Poeta, músico, compositor, professor de teatro e literatura, André é um intelectual vibrante que personifica a riqueza da cultura brasileira. Preparem-se para mergulhar numa conversa que passeia pela análise literária, pela força da cultura popular e pela urgente voz dos povos originários.

Desvendando Manuel Bandeira e Senhor Omar: Uma Monografia Premiada

O ponto de partida da nossa exploração foi a obra que consagrou André Gardel como autor: a premiada monografia “Manuel Bandeira e Senhor Omar”. Este trabalho notável, que lhe valeu o Prémio Carioca de Monografia, mergulha na instigante relação entre o modernismo erudito de Manuel Bandeira e a expressão genuína da cultura popular através da figura de Senhor Omar.

André guiou-nos pelos bastidores da sua pesquisa de mestrado em Literatura Comparada na UFRJ, sob a orientação da professora Beatriz Rezende e com o prefácio do renomado Hermano Vianna. Descobrimos um Rio de Janeiro efervescente nos anos 20, marcado por transformações urbanas, pela divisão geográfica da cidade e pelo vibrante florescimento de manifestações artísticas como o samba moderno, que ganhava forma no Estácio.

A monografia de André ilumina a rica tapeçaria cultural da Lapa boémia, onde a intelectualidade de nomes como Manuel Bandeira e Villa-Lobos se encontrava e dialogava com a espontaneidade de figuras populares como Pixinguinha e o próprio Senhor Omar, o “rei do samba”. Uma análise perspicaz das raízes da identidade carioca que ecoa até aos dias de hoje.

“Almas Selvagens”: Onde a Erudição Encontra a Essência Popular

Inevitavelmente, a conversa migrou para a forma como essa profunda investigação das interconexões culturais se manifesta na produção criativa de André, em particular na sua peça de teatro “Almas Selvagens“. Surpreendentemente, André Gardel define-se primeiramente como um compositor de música popular, um território onde a intuição e a vivência se sobrepõem ao estudo formal da música, apesar da sua sólida formação académica em teatro e literatura.

Essa dualidade entre o erudito e o popular é a alma da sua obra. “Almas Selvagens”, concebida em 2015 após um período dedicado às demandas burocráticas da academia, irrompe como uma libertação da energia artística contida. A peça também bebe da vasta pesquisa de André para a disciplina “Formação do Teatro Brasileiro”, onde ele propõe uma releitura da história teatral sob a lente antropofágica, unindo as ideias de Oswald de Andrade com a profunda sabedoria da epistemologia indígena de Eduardo Viveiros de Castro.

A Força da Sabedoria Ancestral Indígena

O fascínio de André pela filosofia indígena revela-se como um fio condutor na sua visão de mundo e na sua arte. Essa perspetiva inspirou-o a escrever “A Viagem de Ulisses pelo Rio Amazonas“, um romance que ele descreve como uma paródia antropofágica da Odisseia, promovendo um diálogo intercultural entre a Grécia arcaica e as ricas civilizações pré-colombianas da Amazónia.

Atualmente, André Gardel também se dedica a explorar o universo do xamanismo num novo livro, investigando a poética Pajé e a força da vigília onírica. Essa imersão profunda no conhecimento ancestral indígena é a base conceptual de “Almas Selvagens”, uma tentativa de traduzir para a linguagem teatral um “pensamento selvagem” contemporâneo, inspirado nas reflexões de Claude Lévi-Strauss.

A Urgente Voz das “Almas Selvagens” no Brasil Atual

As “almas selvagens” que ecoam na obra de André representam a resiliência dos povos indígenas pré-colombianos, que lutam pela preservação da sua cultura e território. Ele expressa a sua profunda preocupação com as políticas do atual governo brasileiro e de regimes anteriores, que historicamente tentaram silenciar e aniquilar essa civilização milenar em nome de uma lógica económica e religiosa.

André ressalta a importância da organização política indígena, que ganhou força a partir dos anos 70 com líderes como Mário Juruna e Ailton Krenak, culminando na Constituição de 1988. No entanto, ele lamenta o atual retrocesso e a tentativa de desvalorização da identidade indígena.

Na sua visão esperançosa, André vislumbra um futuro onde o Brasil se reconheça como uma nação plurinacional, com representação e voz para os povos indígenas e quilombolas, onde a diversidade cultural seja a verdadeira riqueza da nação. Ele faz eco à perspicaz observação de Alberto Mussa sobre a presença da ancestralidade indígena em toda a identidade brasileira.

“Frestas”: Onde o Novo Começa a Despontar

Encaminhando-nos para o final da nossa enriquecedora conversa, explorámos o recente livro de contos de André, “Frestas“. Embora reconheça que a radicalidade do seu próximo romance ainda não esteja totalmente presente nesta obra, André revela que “Frestas” já prenuncia a emergência dessa “outra tecnologia”, dessas “almas selvagens” na sua escrita em prosa.

No conto que abre o livro, “Avô”, André partilha a sua busca pelas raízes indígenas através do encontro com o seu avô gaúcho. A figura de uma mulher indígena como intermediária nesse encontro simbólico representa a ligação com a ancestralidade e a receção de uma herança cultural não colonizada.

André  Gardel convida-nos a explorar outros contos de “Frestas”, como “Paquetá”, onde ele assume uma voz mais alinhada ao seu conceito de “Realismo Político”, onde o mítico se entrelaça com a realidade de forma surpreendente. Em “Paquetá”, a transformação do protagonista em onça para a retoma de terras ancestrais é uma poderosa metáfora da luta pela identidade e pela memória.

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