O fim da vergonha e a normalização da política fascista
Durante décadas, ideias racistas e antidemocráticas eram tabu. Hoje ganham palco e legitimidade. Baseado em Jason Stanley e Vicente Valentim, explico como o “fim da vergonha” banaliza a política fascista — e por que defender verdade, escola e memória é decisivo.
"Apagar a História: Como os Fascistas Reescrevem, o Passado para Controlar o Futuro." de Jason Stanley
Durante décadas, parecia existir um acordo tácito na nossa vida pública: certas ideias, fossem elas racistas, violentas, abertamente antidemocráticas, eram tratadas como motivo de embaraço. Podiam circular nas mentes obscuras, mas não mereciam projeção. Hoje, porém, vemos-las ocupar noticiários, redes sociais e plenários parlamentares como se fossem apenas mais uma opinião respeitável. Esse salto não aconteceu do acaso. Ele tem um método, uma linguagem e um conjunto de estratégias que Jason Stanley descreve como “política fascista” e que Vicente Valentim, na sua obra sobre a direita radical, chama o “fim da vergonha”.
Valentim mostra-nos que a maioria das pessoas não acorda extremista da noite para o dia. O que muda é o contexto em redor: líderes, comentadores e amigos começam a dar sinais de aprovação. A sanção social desvanece-se. E aquilo que antes era sussurrado ao jantar passa a ser tweetado sem pudor. Cada afirmação pública encoraja outra, e de repente, o que soava impensável torna-se banal.
Stanley avisa: não chamemos “fascismo” a tudo para não esvaziar a palavra, mas usemo-la quando há um padrão claro. Esse padrão inclui:
• criar um “nós” puro contra um “eles” impuro;
• reescrever o passado para caber num mito patriótico;
• atacar a verdade e quem a ensina;
• glorificar a hierarquia e a violência.
Nada disto chega em forma de grito militar logo no primeiro dia. Vem em doses pequenas: minorias tratadas como “ameaça”, políticas de expulsão batizadas de “ordem”, piadas que “não se podem levar a sério”. A linguagem vai anestesiando.
Para funcionar, essa política precisa de varrer do caminho quem recorda factos e faz perguntas. Por isso, corta-se financiamento a museus, aldraba-se manuais, perseguem-se professores. Quando estudar história colonial vira “ideologia”, e falar de direitos humanos é “doutrinação”, o terreno fica livre para a fantasia que melhor servir o poder.
Uma vez desumanizado o outro, aceitar a violência torna-se mais fácil. Primeiro retira-se o rosto — são “fluxos”, “massas”, “danos colaterais”. Depois lava-se a culpa: “não havia alternativa”, “eles começaram”. E o público, gente comum, acaba a bater palmas a políticas que, se lhe fossem apresentadas de forma crua, rejeitaria.
Não basta indignarmo-nos nas redes sociais. Precisamos de devolver peso à palavra “vergonha”, não no sentido de humilhar, mas de lembrar limites básicos de convivência.
A democracia não se esgota nas urnas. Ela vive na linguagem que usamos e no tipo de coragem que premiamos. Se deixamos passar o “foi só uma piada” ou o “toda a gente pensa assim”, contribuímos para que o espaço comum se estreite.
O remédio não é censurar, mas recusar a indiferença. A cada simplificação, um fact-check. A cada ataque ao ensino, uma defesa serena da academia. Só assim evitamos que o apagamento das palavras abra caminho ao apagamento de pessoas. A liberdade precisa de lembrança, de dúvida e, sobretudo, de cidadãos dispostos a dizer “basta”.
