Rendição em Turnberry, Von der Leyen submete a Europa ao “America First” de Trump

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Em Turnberry, Von der Leyen esperou que Trump terminasse o golfe, entrou sozinha e assinou um acordo que eleva as tarifas a 15 por cento sobre 70 por cento das exportações da UE, impõe a compra de 750 mil milhões em energia fóssil e investimento de 600 mil milhões nos EUA, abrindo concursos de defesa a firmas americanas, comprometendo a autonomia estratégica europeia.

Von de Leyen and Trump meeting.

Fonte imagem: Euronews

A imagem recolhida em Turnberry, Escócia, onde Ursula von der Leyen aguardou que Donald Trump concluísse a sua volta de golfe para rubricar um texto redigido em dois dias, expôs com brutal clareza a sua fragilidade negocial. A presidente da Comissão entrou sozinha numa sala, sem mandato formal nem balanço de impacto, validando um acordo que nenhum parlamento nacional teria aceite nestas condições .

O documento fixa tarifas de quinze por cento sobre cerca de setenta por cento das exportações europeias, multiplicando por quase dez a média anterior, obrigando a União Europeia a comprar setecentos e cinquenta mil milhões de dólares em energia fóssil norte-americana e a mobilizar outros seiscentos mil milhões de investimento produtivo dentro dos Estados Unidos, abrindo simultaneamente concursos de defesa às empresas de Washington.
Num gesto só, Bruxelas trocou a autonomia estratégica por dependência energética, transferindo capital que poderia modernizar a indústria europeia.

Quem contesta? Seguramente que não será Mark Rutte, secretário-geral da NATO a quem trata Trump por “daddy”, nem Kaja Kallas, alta representante para a Política Externa, ambos alinhados com Von der Leyen num atlantismo que já não distingue parceiro de tutor. A ausência de contraditório institucional transforma a Comissão, a Aliança Atlântica e o Serviço de Ação Externa num triângulo de poder que decide sem prestar contas, deixando os Estados-Membros perante faits accomplis.

E António Costa? Desaparece do radar quando se definem tarifas que vão condicionar empregos e receitas fiscais no continente?

A Europa descobriu agora, tardiamente, que ficou refém do trio Von der Leyen, Rutte e Kallas. Sem transparência no processo, sem avaliação de custo-benefício e sem voz crítica de quem deveria arbitrar os interesses comuns, o bloco europeu aceita contrapartidas leoninas em nome de uma estabilidade que se confunde com submissão. Enquanto durarem estas lideranças, cada “compromisso histórico” corre o risco de ser mais uma capitulação disfarçada de realismo.

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Autor

  • Nuno Cruz é Colunista, Gestor de Projetos e Docente Universitário